Será alergia, intolerância ou desinformação?

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Olá e bem-vindos à 3ª crónica do Maria na Linha!

Como tenho referido nas crónicas anteriores; estarmos informados é uma grande mais-valia para conseguirmos ter um bom estado de saúde e uma boa qualidade de vida, se assim o quisermos. No entanto para estarmos informados, muitas vezes recorremos a fontes que nem sempre são as melhores e as mais fidedignas. Muitas vezes nessas fontes encontramos informação excessiva, por vezes contraditória, que nos deixa confusos; e que nos faz tomar determinadas decisões, por vezes radicais, na tentativa de as acompanhar a todas; “mais vale a mais do que a menos”. Contudo ao fazermos isto, podemos estar a cometer erros e a trazer consequências negativas à nossa saúde.

Neste sentido, pensei trazer um tema que é cada vez mais recorrente e falado nos dias de hoje e que por isso, acaba por ter alguns mitos associados. Quem é que nunca ouviu, “vou eliminar X da minha alimentação porque acho que não me faz bem”, ou “vou deixar de beber Y pois não o digiro bem”, ou ainda, “vou deixar de comer Z pois me sinto inchado”. Será que há realmente fundamento para o fazermos? Será que não estamos a tomar uma decisão de ânimo leve, privando-nos de determinados alimentos e com isso, determinados nutrientes? Será que nos lembramos que há realmente pessoas que têm necessidade de restringir esses mesmos alimentos e que têm, de alguma forma, as suas vidas condicionadas por isso?

De facto, é necessário perceber, quem é que precisa de retirar por exemplo o glúten ou a lactose da sua alimentação, quando é que temos a certeza de que o devemos fazer; e por outro lado, perceber quais as diferenças entre ser alérgico ou intolerante a um alimento e entender a gravidade que estas condições realmente trazem.

Em primeiro lugar dizer que, as alergias alimentares são um grande problema de saúde pública devido à sua prevalência crescente e à gravidade e interferência que têm na qualidade de vida das pessoas alérgicas e de quem as rodeia. As alergias alimentares afetam muitos europeus, sendo que 1 em cada 20 crianças têm 1 ou mais alergias alimentares e que na última década, os casos de alergias duplicaram e o número de hospitalizações causadas por reações severas a alimentos, aumentou significativamente.

Existe também um aumento de casos de intolerâncias alimentares, mas é importante perceber quais as diferenças para as alergias. Ambas são hipersensibilidades, ou seja, reações exageradas à exposição de um estímulo numa dose habitualmente tolerada pelos indivíduos, mas a principal diferença entre elas, está nos mecanismos de ação, pois no caso das intolerâncias os mecanismos não são imunológicos. O que se verifica nas intolerâncias é a falta de uma enzima ou outro componente, que permitiria a digestão adequada do alimento ingerido; já nas alergias, o sistema imunitário reage exageradamente, em modo de defesa, a um alimento que entra em contacto com o organismo, pois reconhece-o como nocivo. Havendo estas diferenças, a gravidade e os riscos acabam por ser diferentes e as manifestações/sintomas e o timing em que elas surgem (alergia – mais imediato, após ingestão; intolerância – poderá ser mais tardio, relacionado com a digestão), são também distintas.

Para um correto diagnóstico das alergias e intolerâncias alimentares é necessário avaliar a história clínica e fazer um exame físico adequado, avaliando toda a história alimentar para se perceber e identificar o alimento que causa a sintomatologia. No caso das alergias é necessário recorrer também a testes cutâneos, testes de IgE específicas e/ou provas de provocação oral (PPO). Todas estas avaliações devem ser feitas com o acompanhamento de um profissional de saúde pois apenas um diagnóstico preciso, permitirá evitar restrições alimentares desnecessárias, que poderão comprometer o estado nutricional da pessoa. Sabe-se que a prevalência das alergias alimentares é estimada através do auto reporte ou da real evidência de alergia e o que se verifica é que a prevalência auto reportada é 10 vezes maior que aquela que é comprovada.

Atualmente os principais alergénios e que provocam 90% das reações, são o leite, o ovo, a soja, o trigo, o amendoim, os frutos gordos, o marisco e o peixe. Muitas pessoas acreditam que determinados sintomas estão relacionados com a ingestão destes alimentos e por isso acabam por retirá-los da sua alimentação, não tendo, contudo, um diagnóstico confirmado da relação causal.

Os testes de alimentos – IgG4 específicos, têm sido cada vez mais requisitados para a pesquisa de intolerâncias/alergias. No entanto, gostava de alertar para o facto de muitos resultados positivos, não terem relação com os sintomas clínicos e no caso das intolerâncias alimentares, a sua utilização não faz sentido, pois como já vimos, estas não têm interferência com o sistema imunitário. A presença de IgG4 nos humanos, indica apenas que o organismo esteve exposto repetidamente a componentes alimentares, reconhecidos como estranhos ao sistema imunitário. No fundo as IgG são imunoglobulinas de exposição que surgem como “+” para tudo aquilo a que somos expostos e a sua presença não deve ser considerada como um fator de hipersensibilidade, mas sim como um indicador normal da tolerância imunológica associada à atividade das células do sistema imunitário. No fundo, apesar de cada vez mais, as pessoas recorrerem à utilização destes testes para o despiste de intolerâncias e alergias, os testes IgG4 não devem ser utilizados para o diagnóstico de alergias alimentares ou intolerâncias.

Deste modo, reforço a importância de perceber que ao estarmos a restringir determinados alimentos, sem razão aparente ou justificação médica, estamos a privarmo-nos de determinados nutrientes que nos fazem falta. Procurem por isso, informação correta, aconselhem-se com profissionais de saúde, avaliem bem os sintomas e as alterações que sentem, a recorrência dessa sintomatologia e só depois tomem decisões. Por vezes há decisões que tomamos que podem não ser tão inócuas como pensamos.

Espero ter ajudado a esclarecer algumas dúvidas e a desmistificar um pouco este assunto.

Fico à vossa espera para próxima crónica, e até lá, mantenham-se na linha!

1 comentário em “Será alergia, intolerância ou desinformação?

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