A Família e a Alimentação da Criança

Sejam bem-vindos a mais uma crónica!

No dia em que esta crónica está a ser lançada comemora-se o Dia Internacional da Família e como tal, achei oportuno dar o merecido destaque a esta celebração.

A verdade é que, tenha ela as características que tiver e tenhamos nós a idade que tivermos, a família tem um valor indiscutível nas várias etapas da nossa vida. Ao longo do nosso crescimento, são muitas as áreas em que a família exerce um papel importante e são muitos os motivos que me fariam referenciar o valor que ela tem no nosso dia-a-dia.

No entanto, decidi escrever sobre a relação entre a família e a alimentação, nomeadamente a importância e a influência que esta exerce na alimentação dos mais novos e na criação dos seus hábitos alimentares. Isto porque a relação entre o tipo de alimentação que a criança faz e a relação que ela tem com os alimentos, é muitas vezes explicada pela dinâmica familiar que existe “à mesa”.

Durante os primeiros anos de vida, a alimentação da criança está muito dependente das escolhas alimentares que os seus cuidadores fazem por elas e é altamente influenciada pelas ações que eles próprios praticam. A criança vê a família como um modelo de exemplo e tenta agir de acordo com as práticas que observa no dia-a-dia; como tal, a família pode assumir uma grande responsabilidade no que respeita à aquisição de hábitos alimentares saudáveis, de preferências e preterências alimentares, bem como nas atitudes comportamentais e de relação com a saúde, especificamente com a alimentação.

Durante o primeiro ano de vida, enquanto decorre a introdução de novos alimentos, a família do bebé acaba por ter a responsabilidade de fazer esta introdução de uma forma correta. A família é que decide o momento em que o bebé vai ingerir determinados alimentos e como ou quando, é que ele vai ser exposto a novos sabores e a novas texturas. É também a família, a responsável pela escolha dos utensílios que o bebé vai utilizar para comer, onde é que vão ser feitas as suas refeições e em que horários. Todas estas decisões acabam por determinar a forma como aquele bebé vai encarar o primeiro contacto com a alimentação; como é que vai reagir no momento das refeições, como é que vai estabelecer as suas preferências alimentares, como é que futuramente vai aceitar o contacto com novos sabores e alimentos e muito provavelmente, como é que vai ser o seu padrão alimentar futuro.

Uma adequada introdução de alimentos sólidos, a aposta na oferta variada de alimentos, a prática de exposição a diferentes texturas e sabores e a estruturação das refeições, podem de facto, trazer consequências positivas na qualidade da alimentação da criança e na aquisição de bons hábitos alimentares. O contrário pode também ocorrer e nesses casos, o aparecimento de distúrbios alimentares e a aquisição de maus hábitos podem surgir.

Nos anos seguintes, a criança encara a família como modelo de exemplo, acabando por agir e reagir consoante aquilo que vê. As refeições em família são grandes oportunidades de aprendizagem e existem algumas estratégias que podem ser executadas para que o processo seja mais simples e potenciador de resultados positivos. Deixo-lhe aqui algumas delas:

– Aproximar o máximo possível o tipo de dieta que a criança faz, com aquela que os seus familiares fazem, ou seja, que os cuidadores ingiram os mesmos alimentos que oferecem à criança. De nada adianta incentivar a criança a comer alimentos que ela não vê a serem consumidos pelos familiares.

– Oferecer e incentivar a ingestão de alimentos saudáveis de uma forma pacífica. Elogiar a criança quando opta por um alimento saudável, enfatizar os benefícios da ingestão e a integração das crianças no processo de preparação e planeamento das refeições, poderá ajudar bastante.

– Ter a sensibilidade de perceber os sinais de saciedade e de fome da criança e adequar as porções que lhes são servidas. Isto é importante pois a criança deve aprender a autorregular o aporte energético consoante as suas necessidades. Tenha a consciência de que a criança passa por diferentes picos de crescimento e que o seu apetite vai de encontro a isso; se por exemplo o seu filho tem entre 2-5 anos e o apetite que ele tem não é aquele que esperava, talvez não tenha de se preocupar, pois nesta fase há uma descida na curva da velocidade de crescimento e portanto as necessidades energéticas são menores e o apetite mais reduzido.

– Saber gerir as expectativas durante o processo de aceitação de novos alimentos e sabores, é também fundamental. Por vezes não é fácil, mas insistir no processo da exposição repetida e saber gerir a relutância na aceitação de novos sabores (repetir entre 8-15 vezes o mesmo alimento, exceto se este for suspeita de alergia) deve fazer parte da dinâmica familiar.

– O ambiente durante as refeições deve ser tranquilo e agradável de forma a permitir que toda a família aprecie a companhia uns dos outros. É necessário evitar atitudes coercivas e/ou persecutórias, subornos ou castigos. No entanto é fundamental estabelecer regras, por exemplo, quanto ao tempo máximo da refeição (deve durar aproximadamente 20 minutos), quanto ao cumprimento de uma rotina de horários das refeições e ainda, estabelecer o número de refeições e a forma como estas devem ser constituídas. Desta forma, permite-se que a criança saiba o que pode esperar da sua alimentação e aprenda a lidar com essas informações.

– Por mais simples que possa parecer, utilizar os utensílios certos nomeadamente o acento, os pratos e os talheres, pode influenciar a qualidade com que a criança se alimenta. Incentivar à estruturação da refeição, ou seja, fazer com que esta seja um momento de pausa, em que toda a família está sentada à mesa, em que todos seguem os mesmos padrões comportamentais; é de facto importante para a forma como a alimentação é encarada.

Todo este processo não é simples e por vezes torna-se até bastante desafiante. Como cada família é diferente, não há normas fixas e estratégias únicas; estas são apenas algumas ideias que podem servir de guia. O importante é adequar as estratégias à realidade de cada família e que esta entenda, a importância de criar momentos de aprendizagem durante as refeições familiares e de simultaneamente, proporcionar momentos de convívio e de partilha.

Experimente juntar mais a família no processo da alimentação, seja através das idas ao supermercado, seja na escolha das refeições, seja na própria preparação e confeção dos alimentos, seja na reunião familiar à mesa. Que a família tenha sempre uma influência positiva na alimentação de cada um dos seus elementos.

Espero que tenham gostado!

Encontramo-nos na próxima crónica e até lá, mantenham-se na linha!

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